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Meu Amigo Rogéria | Assuntos de Mulher | Dicas, Truques , Cabelos e Maquiagens

Meu Amigo Rogéria





“Não, meu bem, não sou mulher, não. Sou homem, querida”.

Dizia não querer ser mulher, mas parecer com uma. Plaft! Lição 1. Dizia que jamais injetaria substâncias no corpo que não a pertenciam. Plaft! Lição 2. Dizia nunca fazer cirurgia de mudança de sexo. “Sou homem, esqueceu?” Plaft! Lição 3.

Foi Caio F Abreu para Claudia Wonder o desvincular o gênero do

no texto exato e inspirador do Documentário “Meu Amigo Claudia” idem  sobre o qual escrevi neste espaço que alivia

Escreveu meu amigo Caio:

Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível.

Não é incrível o Caio? Cirúrgico. Simples. Genial

Mas é sobre minha experiência com Rogéria, o travesti da família brasileira, que falo hoje.

Infelizmente perdemos Rogéria há alguns dias.  Tantas homenagens parecem pouco diante do que ela merecia. seu tempo, seus votos, sua segurança e a  sabedoria de quem exercia o yin-yang essencial.  Gostaria de ouvi-la hoje. Falar sobre – abre aspas –  psicólogos – fecha aspas e juízes. Riríamos, é certo. Risos de quem viveu tempos difíceis e anos de chumbo, mas nunca tão perigosos e apocalípticos quanto estes tecnologicamente covardes. Nunca antes tão mascarados de violência escancarada.

Rogéria foi a primeira travesti que a minha geração infante pode conhecer.  Pela TV ainda  sem as cores deslumbrantes, ela dizia:  ”Astolfo Barroso Pinto, com prazer dobrado”, jorrando lascívia, arrancando gargalhadas de Hebe Camargo. Presente em dez entre dez sofás de programas noturnos, sabia que sua condição lhe permitia  posicionamentos controversos, ou não. Polêmicos, ou não. Bem humorados, sempre.. Ela nunca batia, assoprava. Nos fazia rir. Nos causava dúvidas. “O quê?! Essa mulher é homem?!”.  Nunca ao contrário. Imagino hoje, enquanto nós os filhos, ficávamos espantados com a novidade, o que não versejava na cabeça dos chefes de família classe média exemplar. E o quanto Rogéria não inspirava as belas, recatadas e do lar daqueles 1970. Rogéria nunca foi sinônimo de ataques pejorativos, nunca ninguém chamou ninguém de “seu Rogéria!” ou, “aê, Astolfo!”. Havia respeito. Isso, era respeito. Como ela conseguia só vim a descobrir anos depois, quando já engrossava as pernas subindo e descendo escadas carregada de fitas e roteiros nas emissoras de TV pelas quais passei. E Rogéria tinha portas abertas em todas elas.

Encontrei Rogéria

“Fazer Sala VIP” significa recepcionar os convidados para o programa. Conversar com eles, dar as boas vindas, explicar o que aconteceria,  passar o roteiro da entrevista, checar as informações, as perguntas e depois dividir um café society  enquanto aguardávamos a hora de ir pro ar, de o assunto ficava mais do que interessante: bastidores, a vida real reservada à poucos sortudos em posições privilegiadas. Salavipar era uma dessas. Rogéria chegou. E mesmo batendo uma ponte aérea, estava paetezada, cheirosa, cabelos soltos e volumosos e com a feminilidade...

natural de uma verdadeira mulher. Pasmei alguns minutos fazendo uma das coisas que mais gosto, observar. Ali estava uma mulher mais mulher do que muita mulher “de verdade”. Falava como mulher, sentava como mulher, tinha o humor de uma mulher. Era uma mulher. Daquelas que se quer ser.

“Não, meu bem, não sou mulher, não. Sou homem, querida”. E se divertia.

Na época eu adotava uma ura que hoje me arrependo amargamente. Não querendo ser invasiva, conversava sobre tudo e muito, mas não trocava telefones, não tirava fotos (havia sempre um fotógrafo que tirava fotos e depois vendia para quem quisesse comprar), não “incomodava” o artista como fã, groopie. Bobagem. Acreditem, bobagem. Tirem fotos sempre que der, ao lado de quem quiser e gostar.  Desde que com respeito, sem ser invasivos. Isso nunca pode e continua não podendo. Depois de um tempo, só as fotos provam, acarinham. É uma delícia.

Rogéria abriu portas para seus iguais na TV e show business, venceu preconceitos, foi importante para homens e mulheres, para a sociedade, contou segredos nunca antes confessados da vida íntima de um travesti, truques de beleza e elegância. Foi Rogéria quem começou – ao lado de poucos e poucas corajosas – a mostrar que um mais um é igual é um ser humano. Foi Rogéria quem encantou gerações e trouxe coragem e alguns possíveis para inúmeros seres humanos incautos de pouca informação. Foi Rogéria quem trouxe alívio cômico para esse drama que é viver num país eternamente em construção hoje desfacelado como uma bixiga d’água estourada num asfalto escaldante.

Reencontrei Rogéria

Já com o rosto cheio de cicatrizes por conta de um acidente que lhe deformara o rosto, dizia.  ”Quase morri! Mas, sou dura na queda, meu bem!”. Com o tempo as cicatrizes foram diminuindo, algumas ainda permaneceram até seu último dia aqui nessa realidade pantanosa de ela cismava em ser flor.

Como redatora de boa memória, pontuei algumas questões de nossos encontros no roteiro para a entrevista que faria. Ela gostou, ou fez que gostou, porque não se importava com o que lhe seria dito ou perguntado. Rogéria era assim, preparada para tudo. Tinha resposta pra tudo. Eu, ensimesmei. A redatora que queria impressionar aprendia mais uma: Plaft!  Lição Flicts… Tem gente que é. Simplesmente é. Não tem necessidade de preparo ou avisos. É.

De tempos em tempos nos reencontrávamos. Eu, mudando de posição, de programa, de emissora. Ela, sempre Rogéria. E era uma delícia encontrá-la, conversar e ter a certeza que o programa seria bom porque ela estaria lá para assegurar e segurar todas as pontas. Generosa.

E nessas voltas que a vida dá, um tempão se passou. Não vi mais Rogéria. Não nos últimos anos. Verei agora no Divinas s .  Não nos frequentávamos. Ela não se lembraria de mim. Ou me talvez me surpreendesse como sempre em mais uma lição com um delicioso: “Carrrrrrrrrrmen, meu bem! Como eu não lembraria de você, querida?” Plaft!

Viva Rogéria.

Abaixo a ignorância.

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Fonte: Carmen Farão





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