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Mariana Becker: “Faz parte do envelhecimento aceitar que somos imperfeitos” – Revista Marie Claire

Mariana Becker (Foto: Divulgação)


Mariana Becker (Foto: Divulgação)

Mariana Becker (Foto: Divulgação)

Foi com certo alívio que a jornalista Mariana Becker encarou a volta ao trabalho, no início de julho, depois de quase quatro meses vivendo as incertezas causadas pela pandemia do coronavírus no calendário esportivo (e no mundo). Ela mal tinha chegado a Melbourne, cidade onde aconteceria a abertura da temporada do Mundial de Fórmula 1, em março, quando soube que a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) não só tinha cancelado a corrida daquele fim de semana como adiaria as etapas seguintes. “Tive que voltar porque as fronteiras estavam fechando. Saí da Austrália com uma vontade danada de chorar, frustrada. Estava animadíssima, de salto alto invisível, louca pra saber, ver, contar. Não vi, não contei, não soube de nada, acabou a brincadeira”, relatou por telefone a correspondente internacional, uma das primeiras mulheres na cobertura dos Grandes Prêmios.

As altas expectativas para o trabalho são reflexo do momento pessoal e profissional. Aos 48 anos, 25 deles trabalhando na Rede Globo e mais da metade cobrindo automobilismo, ela se sente em sua potência máxima: “Fisicamente não me canso, estou ótima e com o cérebro bem afiado, que é uma coisa que o tempo te dá”, disse durante o papo sobre envelhecimento, que incluiu também lembranças de um lifestyle poético do surf e o machismo persistente no ambiente de trabalho.

Confira abaixo!

Marie Claire: Como tem sido esse retorno à cobertura das corridas?
Mariana Becker: Há 11 anos não sabia como era ficar tanto tempo no mesmo lugar e num ritmo mais lento. Então, recebi a notícia do retorno com certo alívio. Assim que cheguei para trabalhar o clima geral era de saudade. As pessoas estavam sentindo falta umas das outras. Na prática, estamos indo com cuidado. A gente faz o PCR (exame que detecta o vírus causador da Covid-19) de cinco em cinco dias, o uso da máscara é constante e temos que manter a bolha de convivência, ou seja, ficar entre os pequenos grupos que foram determinados para não se misturar. A verdade é que somos pilotos de teste, o mundo dos eventos está de olho na F1 para ter certeza de que vai dar certo.

MC: Está mais complicado trabalhar assim?
MB: Está sendo um grande desafio porque não podemos nos encontrar para conversar, por exemplo. E é nessas conversas que a gente consegue a maior parte das informações, tem as ideias. As entrevistas são pré-determinadas, não temos aquele papo solto. E tem a parte física também, agora não tem mais onde sentar, não temos proteção para a chuva, para o sol, pois qualquer coisa que possa gerar aglomeração é proibida. Então, o repórter fica muito mais exposto. Termino meus dias bem cansada, mas com a satisfação de ter exercido a minha profissão e entregue o que me foi pedido.

MC: Você fala do trabalho com muita paixão. Ser uma jornalista de esportes sempre foi um sonho?
MB: Quando era adolescente, no fim dos anos 80, gostava de viajar sozinha para surfar, ouvir um som, conversar com as pessoas que encontrava e escrever. Devia ter uns 17 anos e comecei a escrever matérias com mulheres que achava interessantes. Uma delas foi com a Andrea Lopes, primeira campeã brasileira de surf. Ela tinha mais ou menos a minha idade e eu achava superlegal aquela guria surpreendendo todo mundo. E daí fui me metendo nesse meio jornalístico, rolou naturalmente.

MC: E logo foi parar nas corridas de carro?
MB: Não, entrei na Globo em 95 e, naquela época, para ser respeitada, uma jornalista tinha que saber fazer bem futebol. E já tinham mulheres fazendo, poucas, mas muito boas. Sou do tempo que tinha que entrar no vestiário para fazer entrevista. A gente chegava para falar com os caras e eles estavam pelados.

MC: Sofria assédio nessas situações?
MB: Por incrível que pareça, ali nunca sofri nenhum tipo de pressão. Fora, sim. A gente ia trabalhar na beira do campo sabendo que seria xingada. Nos primeiros dias não entendia o porquê daquilo, mas daí via que estava num ambiente que não podia reagir. Íamos com roupas mais masculinas, sem vaidade, com a calça frouxa. No final, não fazia a menor diferença.

MC: E depois, nos autódromos?
MB: Quando comecei a cobrir o Grande Prêmio Brasil ouvia um monte da torcida também. Hoje em dia é diferente, não sei se os tempos mudaram ou se as pessoas me conhecem mais. Sei que nas arquibancadas ainda tem. Recentemente, umas meninas me disseram que estava rolando assédio, caras esperando na porta do banheiro, essas situações inacreditáveis.

MC: Você foi uma das primeiras a cobrir Fórmula 1, em 2007. Como foi o passar do tempo para você?
MB: O passar do tempo tem coisas mágicas porque impõe situações que fazem as pessoas te respeitarem mais. E você também passa a se respeitar mais. Descobrir informações, insistir com o piloto que te dá uma resposta ruim. Felipe Massa sofreu um acidente grave, tive que fazer uma cobertura insana. Não tinha tempo nem de fazer xixi. Você pensa: peraí, sou capaz de fazer isso! É claro que sempre tem um cara para te encher o saco porque você é mulher, mas meus objetivos são maiores. No início, as críticas me atingiam profundamente porque tinham eco dentro de mim. Depois de um tempo fui vendo que fulaninho também erra, o outro também. Por que o meu erro é pior?

MC: Um dos benefícios de envelhecer é se respeitar mais?
MB: Lido com o envelhecimento da mesma forma que sempre tratei a beleza e a minha imagem. Às vezes as pessoas questionam as fotos que posto no Instagram, descabelada, suada, com um monte de rugas aparentes. Mas sou assim. Não vou ficar me esforçando para ser artificialmente perfeita. Faz parte do envelhecimento aceitar que somos imperfeitos.

MC: Sempre pensou assim ou foi a maturidade que te deixou mais relax?
MB: Sempre fui assim. No início, na Globo, foi até um problema, volta e meia me chamavam. Sou a famosa repórter descabelada (risos). Não é que sou superbem resolvida, às vezes não me dou conta de que estou ficando mais velha, acho que estou que nem uma menina de 30 e daí sou lembrada de que não. E claro que não é bom.

MC: É lembrada como?
MB: Tenho 48 anos, não nego a idade que tenho. Continuo sendo uma pessoa ousada em muitos aspectos, até físicos, corro a cavalo como maluca, já caí várias vezes, quase fiquei paralítica surfando. A minha ousadia segue. Mas não acho que essa ousadia me faz uma menina, não precisa ser anexada à juventude. Está anexada a minha idade mesmo. E isso é o legal: você se dar conta de que pode ser do jeito que quiser. É uma fase de aceitação maior. A gente tem que fazer força para não lutar contra o tempo porque a exigência é que sejamos sempre jovens.

MC: Sente medo de ser invisibilizada por conta da idade, ainda mais trabalhando na televisão?
MB: Claro que tenho. Eu me sinto na minha potência máxima de trabalho. Fisicamente não me canso, estou ótima e com a mente bem afiada, uma coisa que o tempo te dá também. Claro que a ideia de perder a minha posição por algo que não posso controlar, que é o tempo, a idade, é um troço horroroso. Não deveria, mas ainda acontece nos dias de hoje.

MC: E como isso ressoa dentro de você?
MB: Continuo fazendo exatamente a mesma coisa. Não tento ser mais jovem, usar gírias diferentes, andar ou me vestir de outra forma. A mentira não convence ninguém. Mas já ouvi piadas, de leve, passando. Esses dias um colega na redação falou em tom irônico sobre eu estar há muito tempo na TV. Começa a rolar umas coisinhas que antigamente não daria bola porque não tinha nada a ver com isso, essa sombra não existia. Hoje é um troço que me deixa puta. Não gosto desse tipo de approach.

MC: É um tipo de preconceito que ainda precisa ser combatido.
MB: E vai demorar para mudar. Essa é uma segunda barreira a ser quebrada. A primeira foi ter sido uma das pioneiras num esporte que tem um ambiente muito masculino. Hoje vejo gente da geração abaixo da minha reclamando de assédio, de um cara que foi grosseiro, coisas que na minha época tinha que ouvir e ficar muda. Agora tem essa segunda, que é o machismo de exigir que uma mulher seja sempre linda e jovem.

MC: Existe algum grande plano que você gostaria de colocar na rua nos próximos anos?
MB: Acabei de escrever um livro de crônicas, espero lançar em agosto. Tem vivências minhas com o automobilismo, muita coisa de viagem, de família. E há uma vontade, que é um pouco sem pé nem cabeça, de fazer um documentário, assinar um roteiro sobre animais, entrar um pouco por outras áreas. Assim que pintar algum fio que eu possa segurar, enrolo para chegar lá.



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